AGUARDE
19 março 2017

Não, ela não surfa igual a um homem!

Por Érica Prado

Nos últimos anos a palavra “feminismo” ganhou notoriedade no mundo do surfe. Os homens (e até algumas mulheres) acham que isso é uma besteira ou perda de tempo. Antes de mais nada eu gostaria de explicar que feminismo significa luta por igualdade de gênero. Vou tentar exemplificar porque esse movimento se faz necessário no mundo do surfe em 3 tópicos: 

 

Performance

A evolução da performance das mulheres dentro d’água é incontestável. Hoje em dia não são raras as vezes que vemos tops do CT entubando com facilidade, dando aéreos incríveis ou fazendo um surfe de linha impecável durante uma bateria. Isso deve-se exclusivamente à determinação e comprometimento que cada uma tem com o esporte. Elas treinam incessantemente, fazem preparação física, se preocupam com a alimentação e quando conseguem entrar em sintonia com as ondas e dar um show de surfe o que elas escutam? “Nossa, ela está surfando igual a um homem”. Gente, numa boa! Isso não é um elogio! As mulheres são biologicamente diferentes dos homens, tem uma linha de surfe distinta e um estilo único. Elas podem se espelhar nos homens e realizar as mesmas manobras, mas elas vão continuar sendo mulheres, surfando BEM PARA CARAMBA como mulheres. Sim, as mulheres são capazes! E antes que você questione “Isso não é machismo e blá blá blá”, pare e pense quantas vezes você escutou um comentarista falando durante a transmissão de algum evento: “Nossa, ele rabiscou a onda como uma mulher”, “Olha, a rasgada do John John Florence está redonda como a da Lakey Peterson” ou “A leitura de onda do Gabriel Medina é tão incrível quanto a da Stephanie Gilmore”.  Reflitam!

 

Nota 10 da surfista norte-americana Lakey Peterson no Pro Gold Coast 2017: 

 

 

Premiações 

O valor recebido pelo campeão de uma etapa do circuito da elite do surfe mundial é 100 mil dólares, enquanto as mulheres recebem 60 mil dólares (40% a menos) quando faturam o mesmo evento. Aí vem aquela enxurrada de velhas desculpas: “Ah, mas a elite masculina tem o dobro de integrantes, eles precisam ser compensados de alguma forma”, “Os homens deixam as praias mais cheias durante o evento”, “Existem muitos pais de família no circuito, por isso merecem ganhar mais”. e por aí vai.  Bom gente, acho que toda opinião é válida e cada um tem o direito de ter a sua, mas gostaria de deixar claro que as mulheres não recebem descontos nos hóteis durante as competições, elas também não recebem 40% de abatimento nas passagem de avião, muito menos ganham dedução  nos restaurante e lanchonetes nos quais se alimentam durante um evento. 

 

Salários 

O assunto já é batido, mas não custa nada colocar o dedo na ferida. As mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos e no surfe não poderia ser diferente né? Afinal de contas, o sistema é esse, a sociedade que a gente vive é essa e chega de mimimi! Não, não mesmo! Elas não merecem essa desigualdade salarial! Apenas duas mulheres (Stephanie Gilmore e Carissa Moore) aparecem na  lista dos 10 surfistas mais bem pagos do mundo. Você acha isso justo? 

Stephanie Gilmore é a surfista mais bem paga do mundo, mas ganha 1/4  da renda de John John Florence / Foto: WSL

Eu particularmente acho que não podemos continuar considerando normal essa herança machista. A gente pode substituir os pensamentos arcaicos e os comentários preconceituosos enraizados por uma reflexão sobre os dias atuais, sobre a luta das mulheres (não só as surfistas). É um exercício diário! Eu estou tentando, quer fazer o mesmo?

Foto da capa: Jorge Carranza

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