AGUARDE
24 outubro 2014

Charles Medina

"Preferia que o título tivesse sido ganho em Peniche, mas o Gabriel está preparado para vencer em Pipeline também"

O Gabriel foi eliminado em Supertubos, mas o Kelly também, na mesma ronda do Moche Rip Curl Pro Portugal, décima e penúltima etapa do circuito mundial de surfe. Isso significa que o título será decido numa das melhores arenas do mundo – Pipeline (Havaí). Visto que ele é atualmente líder do ranking, com apenas 20 anos, como é você o está sentindo? Preferia que o título tivesse sido ganho aqui, em Peniche, mas o Gabriel está preparado para vencer em Pipeline também. Hoje, ele está mais maduro, aliás todos nós. Tivemos que aprender as regras e isso fez com que entendêssemos muita coisa e víssemos o que estava pontuando mais, o que é que os juízes gostam de ver. Muitas vezes, você dar um show não significa que vá ter uma boa nota, porque você também está sujeito a errar. Então estamos dançando conforme a música. Acho que o Gabriel conseguiu mesclar esses dois aspectos que são crescer como surfista, com manobras de linha e de força e que contam bastante para a pontuação, e, ao mesmo tempo, continuar dando o show dele, mas sabendo que precisa de passar baterias, que é o mais importante. Isso ele colocou bem claro na cabeça dele, acima de dar show ou fazer algumas coisas que ele gosta, se arriscando a não passar. Agora, sim, está jogando o jogo. Se, no ano passado, ele nos pareceu um pouco irregular, nesse surgiu cheio de confiança, ganhando até etapas que ninguém esperava como a de Teahupoo (Taiti). O que mudaram na vossa estratégia? Na verdade, o Gabriel desde pequeno que tem isso - confiança. É um dom natural dele, sempre acreditou nele, mas, mesmo assim, a maturidade dele agora - apesar de ter apenas 20 anos, embora pareça mais velho - trouxe a ele todas as coisas que eu falei na resposta anterior. No começo do ano, em Snapper Rocks (Austrália), ele chegou pra mim e falou assim: “Agora eu vou te falar, vai ser difícil eu perder uma bateria, eu sei como ganhar.” E muitas vezes me diz assim: “Fica tranquilo que eu vou ganhar”. Tem momentos que, até eu, como técnico, estou apreensivo, falo para ele alguma coisa e é ele quem me tranquiliza. O Gabriel sempre foi muito inteligente, tem um QI esportivo muito alto, muitas vezes eu converso com ele sobre táctica de bateria e lá dentro de água acontecem algumas coisas que mudam o jogo, modificam o cenário, e ele tem essa inteligência de mudar lá dentro, quando já não dá pra eu falar com ele. Ele muda a estratégia sozinho e normalmente faz as escolhas certas. No começo do ano, em Snapper Rocks (Austrália), ele chegou pra mim e falou assim: “Agora eu vou te falar, vai ser difícil eu perder uma bateria, eu sei como ganhar” E quanto ao Kelly Slater, o que é que você tem a dizer? Quanto ao Kelly eu ainda acho que ele é um grande cara, ainda está em forma. Se o Gabriel vier a ser campeão mesmo, algo em que estamos acreditando, acho que a presença dele no circuito vai engrandecer muito o título do Gabriel. O Kelly vai ser o Kelly para sempre. O Gabriel ganhou muita experiência com ele, competindo contra ele, vendo como ele é, e é legal às vezes escutar do Kelly ele falar assim: “Eu vejo no Gabriel alguma coisa que eu tinha quando comecei a minha carreira que é essa força de vontade.” Hoje ele é um adversário, está disputando o título, na hora que estiver dentro de água vai ser nosso inimigo, mas em terra ele é um exemplo. Vocês trocam muita idéia? Não tenho muita afinidade com ele, até porque normalmente só nos vemos mais na hora dos campeonatos. Depois que acaba a bateria eu não sou inimigo dele não, mas naquele momento... Então, acabamos não trocando muita idéia. Mas o Gabriel, fora do campeonato, conversa mais com o Kelly e eu até gosto que eles sejam amigos, fora o campeonato, lógico. No campeonato não dá para dar moleza não. Se o Gabriel vier a ser campeão mesmo, algo em que estamos acreditando, acho que a presença do Kelly no circuito vai engrandecer muito o título dele Ele tem botado muita pressão sob o Gabriel? O Kelly é competidor, ele adora ganhar, isso é até um exemplo, como eu já disse. Mas o que ele puder falar, uma palavrinha aqui, outra ali, para destabilizar o Gabriel, ele vai falar. Porém, ultimamente, tenho visto que as palavras do Gabriel estão perturbando mais ele, do que as palavras do Kelly perturbando o Gabriel, e por isso é que ele diz que se revê um pouco nele. Sabemos que é muito supersticioso. Que rituais adoptou para esse ano, parecem estar funcionando... Sou supersticioso mesmo, acho que isso daí faz parte. Então, nos últimos campeonatos, nas baterias em que vou para dentro de água, tenho usado a mesma roupa borracha sempre. Nas que vejo na areia, como estou com um pouco de miopia, tenho de usar óculos, mas percebi que eles estavam dando um pouco de azar, então, na hora de ele competir, como são só dois dentro de água, dá para enxergar direitinho, tiro o óculos. É uma das superstições que tenho agora, claro que tem ainda aquela roupa que dá sorte, aquele ténis, tudo isso.    

Tags:
COMPARTILHAR