AGUARDE
12 maio 2014

Agora Kelly ficou doce

O “Careca” fala sobre as ondas ruins da Barra, o divórcio da Quiksilver e os critérios de julgamento

Hoje, Slater matou dois coelhos de uma cajadada só. Conseguiu finalmente vencer Adriano de Souza, com uma onda nota dez, e subiu para a liderança do ranking, seu lugar favorito. Falamos com ele, após ter sido eliminado nas semis por Kolohe Andino, durante o último dia de competição na Barra da Tijuca.

Você me disse em Peniche que a etapa do Rio de Janeiro deveria saltar fora do calendário. Mantém a sua opinião?

Se você for olhar para quem se deu bem nesse evento, muitos deles são pessoas que ninguém esperava, porque o fator sorte tem muito peso na maioria das baterias aqui. Muitos caras ganharam por terem apanhado uma onda boa lá no meio e não por terem surfado melhor que os outros. Para a competição, penso que o importante é termos ondas que nos permitam exibir a nossa performance no seu melhor, e não “ah, dei sorte”, “ah, consegui achar um tubo”. Infelizmente, isso aconteceu muito aqui. Existem ondas bem melhores no Brasil, como por exemplo Saquarema, que têm mais parede e nos permitem exibir a nossa performance... A maioria das pessoas no tour concorda comigo relativamente a esse campeonato daqui.

Também falou que “os critérios de julgamento deveriam evoluir pra uma coisa nova ou numa direção diferente, com critérios específicos para os diferentes lugares, diferentes tipos de onda e condições para o surfe”. Falei com alguns juízes aqui e disseram-me que nada tinha sido alterado do ano passado para esse. Esperava que tal mudança entrasse em vigor já nessa temporada?

É difícil pra mim falar sobre isso, nem todos os anos pode ter uma revolução no surfe profissional, por isso acredito que isso acontecerá através de um processo de evolução lento. Penso que eles (os juízes), quando as condições são de tubos, eles se concentram nos tubos, quando as condições são para grandes manobras, eles valorizam mais isso. Os critérios também variam um pouco conforme o lugar... Não existe diferença na definição do que é uma onda boa, por isso penso que os surfistas e os juízes necessitam, provavelmente, de ter uma conversa aberta em todos os campeonatos. Acho que muitos surfistas se sentem intimidados em ir falar com os juízes, porque receiam que os caras fiquem pensando que eles os estão tentando influenciar ou que os outros surfistas fiquem achando estão babando o ovo deles para conseguirem melhores notas. Houve sempre esta divisão, é como o muro de Berlim (risos).

Você me pareceu um pouco dessintonizado nos primeiros dias do campeonato. Você está bem? Digo isso porque me disse ter várias lesões crônicas...

Tive muitas lesões no ano passado, no meu ombro, que agora já está bom, mas onde me machuquei durante o campeonato de Teahupo?o no ano passado. As minhas costas continuam me incomodando, mas me senti bem essa semana, quer dizer não muito mal...Tenho alguns problemas crônicos, como você sabe. Viajo muito e não tenho um mês ou seis semanas para apenas ficar cuidando do meu corpo todos os dias.

No início deste ano você deixou a Quiksilver, seu patrocinador de longa data. Houve quem afirmasse que esse afastamento poderia ter origem no algodão transgênico usado pela marca, política que parece chocar de formar óbvia com os valores que você defende em público. Outros levantaram a hipótese de, por trás dessa desavença, estarem razões monetárias. Será que você nos pode dizer quais foram os seus motivos?

Não sei se vou falar em coisas específicas... Existem muitos motivos que me levaram a abandonar a Quiksilver, mas o principal foi o fato de eu estar querendo criar - e a Quiksilver ia permitir que o fizesse com o meu contrato antigo - a minha própria marca. Seria uma coisa um pouco diferente de competir pela Quiksilver e senti que eles não me estavam apoiando 100% naquilo que eu estava querendo fazer, no rumo que eu queria dar à minha carreira, seguindo os meus princípios e a minha vida. Senti que ficar lá não seria a opção certa, tanto para mim como para eles. Não lidei com isso como sendo uma coisa má, mas sim como uma decisão que me vai permitir alcançar o que quero na minha vida, tinha de ir fazer uma coisa diferente.. Mas ainda está sendo uma transição difícil para mim, parece que me estou recuperando de um divórcio ou qualquer coisa parecida, quer dizer, na verdade, foi mesmo um divórcio. Agora ando mais sozinho, apesar de ainda ter o Belly sempre do meu lado. Ele é o meu melhor amigo, não quer saber do dinheiro e me apoia sempre em tudo o que faço. Todos os surfistas da Quiksilver já perderam e ele ficou aqui no Brasil só por minha causa. Falei com o Bob McKnight (co-fundador da Quiksilver em 1976 e atualmente CEO da mesma) há dois dias no telefone, por uma hora, somos todos bons amigos, apenas estou fazendo algo diferente e que não se encaixava no espaço que eles têm na empresa.

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